Atrasos na obtenção da certificação de aviação civil para táxis aéreos elétricos, somados aos custos crescentes de desenvolvimento, levaram startups do setor aeroespacial a voltar sua atenção para o mercado militar. Elas esperam capitalizar sobre o aumento na demanda por drones — impulsionado pela guerra entre Rússia e Ucrânia e pelos conflitos no Oriente Médio — e, assim, traçar um novo rumo para suas operações.
Segundo a Reuters, o Farnborough Airshow — a segunda maior feira aeroespacial do mundo, atrás apenas do Paris Airshow — foi inaugurado recentemente com grande destaque. O evento atraiu cerca de 1.600 participantes do setor, incluindo diversos fabricantes de aeronaves elétricas de decolagem e pouso vertical (eVTOL). Essas empresas apresentaram ativamente aplicações militares e buscaram parcerias governamentais, empenhando-se ao máximo para garantir uma fatia do lucrativo mercado de aquisições de defesa.
Ao contrário das aeronaves civis, que precisam passar por processos de avaliação longos e rigorosos, as aquisições militares envolvem prazos mais curtos e orçamentos relativamente claros. Além disso, como essas aeronaves não exigem pistas de pouso e decolagem e apresentam custos de operação inferiores aos de aviões militares convencionais — mantendo, contudo, a capacidade de realizar missões como reabastecimento, reconhecimento e evacuação médica —, elas têm ganhado a preferência de forças armadas em todo o mundo.
Adam Goldstein, CEO da Archer Aviation (empresa sediada nos EUA), observou que o mercado de defesa está em rápida expansão; conquistar um contrato militar oferece a perspectiva de receitas mais previsíveis e de longo prazo. Durante a feira, a Archer também apresentou uma aeronave híbrida-elétrica não tripulada, desenvolvida em parceria com a empresa de tecnologia de defesa Anduril, projetada para apoiar missões tanto de combate quanto de logística.
No entanto, a comercialização de táxis aéreos civis continua enfrentando sucessivos atrasos. A Vertical Aerospace, sediada no Reino Unido, adiou recentemente em mais um ano — para 2029 — o cronograma de certificação de aeronavegabilidade de sua aeronave elétrica “Valo”; trata-se de um atraso significativo em relação à meta de 2025 estabelecida há três anos.
Esses constantes atrasos na certificação abalaram profundamente a confiança dos investidores. No último ano, as ações de várias das principais desenvolvedoras de eVTOL apresentaram desempenho negativo: os papéis da Archer Aviation caíram 55,51%, enquanto os da Vertical Aerospace despencaram 79,87%. Esses números refletem a preocupação do mercado com o fato de que as empresas precisam continuar consumindo caixa em pesquisa e desenvolvimento (P&D) antes de alcançarem a fase de comercialização, ao mesmo tempo em que enfrentam riscos como a diluição acionária decorrente de captação de recursos ou uma possível crise de liquidez. Analistas apontam que o setor de eVTOLs enfrenta desafios simultâneos: integrar novas tecnologias, lidar com processos de certificação regulatória e gerenciar pressões financeiras — fatores que estão desgastando gradualmente a paciência dos investidores. Nesta fase, além de buscarem ativamente encomendas militares, as empresas do setor precisam fortalecer seus balanços para terem chances de resistir até que o mercado civil realmente decole.
